A sustentabilidade não recuou em Lisboa

Num momento em que o combate às alterações climáticas enfrenta um dos maiores recuos políticos, Lisboa reuniu especialistas internacionais para discutir o futuro da sustentabilidade.


A segunda edição da Lisbon Sustainability Week, promovida pela Católica-Lisbon SBE, em parceria com a Fundação Santander e com o apoio da Sonae MC, reuniu, entre 29 de Junho e 2 de Julho, alguns dos nomes mais influentes da economia, finanças, ciência e gestão para discutir o futuro da sustentabilidade. O momento não podia ser mais desafiante: enquanto parte do mundo político questiona políticas climáticas que pareciam consolidadas, investidores e empresas continuam a preparar-se para uma economia de baixo carbono.

Esse contexto ficou evidente logo na intervenção de abertura de Cameron Hepburn. O economista da Universidade de Oxford pediu à audiência que levantasse o braço quem tinha sido afectado por um evento climático extremo no último ano. Cerca de 40% das mãos ergueram-se. "Os choques são a nova normalidade", afirmou.

Cameron Hepburn, economista da Universidade de Oxford

Foi uma forma de abrir a conversa que atravessaria os quatro dias da Lisbon Sustainability Week (LSW26): num mundo em que o retrocesso político nas políticas climáticas - com os Estados Unidos na vanguarda - tenta apagar décadas de avanços, o que resta da agenda da sustentabilidade? A resposta que emergiu do evento foi surpreendentemente optimista, mas não ingénua.

A LSW26 arrancou a 29 de Junho com a Lisbon Accounting Conference, uma jornada académica dedicada à investigação sobre reportação climática e risco ambiental, com investigadores de instituições como a London School of Economics, o MIT, Oxford e Northwestern. O tom foi científico e rigoroso - e serviu de ancoragem para os três dias seguintes, em que o foco se deslocou para a implementação empresarial e política.

Os mercados já antecipam o declínio dos fósseis

Robert F. Engle, Prémio Nobel da Economia e professor na Universidade de Nova Iorque, foi a figura mais aguardada da primeira jornada. A sua ECGI Wallenberg Lecture trouxe uma leitura fria e rigorosa sobre o que os mercados financeiros revelam quando despidos de retórica política.

Robert Engle, Prémio Nobel da Economia e professor na Universidade de Nova Iorque

A tese central: as empresas de energia fóssil comportam-se como entidades que já incorporaram o seu próprio fim. Os rácios preço-lucro do sector energético são os mais baixos de todos os sectores - e mantiveram-se assim mesmo após um ano de presidência Trump. Os dividendos são os mais altos. O investimento em exploração caiu. As fusões e aquisições que se observam são consolidações, não expansão. "Um grande banqueiro de Houston disse-me que a nova disciplina do sector é devolver 50% do cash flow aos investidores", relatou Robert Engle, que acrescentou que "é exactamente o que esperaríamos de empresas que encaram o risco de extinção".

Mesa Redonda - dia 30 de Junho

A conclusão foi directa: "O silêncio climático não vai parar as alterações climáticas". As políticas anti-clima da administração americana vão, na melhor das hipóteses, atrasar o declínio, não invertê-lo. E do lado dos fundos sustentáveis, os números de 2025-2026 são eloquentes: retorno médio de 30%, com os fundos de lítio, hidrogénio e energia limpa a registar ganhos entre 115% e 123% no último ano.

Robert Engle introduziu também o conceito de "termination risk" - o risco de extinção empresarial -, aplicando-o às companhias de combustíveis fósseis. A analogia usada foi a do Dodô: "O Dodô não sabia que ia ser extinto. Estas empresas também não sabem, mas o risco existe, e já está a reflectir-se nos preços dos activos". A ideia tem implicações práticas: quem gere uma empresa em declínio estrutural deve reduzir o investimento, aumentar os dividendos e antecipar a consolidação, exactamente o que se observa no sector. Para os investidores, o desafio está em distinguir entre o comportamento racional de uma empresa que enfrenta o fim e o sinal de que o declínio pode ser mais rápido do que o mercado antecipa.

Resiliência: a nova oportunidade de investimento

Cameron Hepburn o argumento com outra entrada: a resiliência deixou de ser um conceito ético para se tornar uma fonte potencial de retorno financeiro. Num mundo onde os choques são mais frequentes, quem conseguir antecipá-los e precificá-los correctamente tem vantagem. "O mercado vai errar na avaliação destes riscos, e quem conseguir estar certo tem alpha disponível".

O professor da Universidade de Oxford lembra que as empresas e os governos tendem ainda a modelar os danos climáticos como um fenómeno gradual, modesto e algo distante. Mas os riscos económicos reais são sistémicos, não lineares e cumulativos, e já começam a ter impacto nos dias de hoje: infra-estruturas danificadas, cadeias de abastecimento interrompidas, menor produtividade do trabalho, choques no abastecimento de alimentos e água, retirada de seguros, pressão migratória, perda de biodiversidade e súbita reavaliação de activos. Feitas as contas, os custos da inacção são “muito mais elevados” que alguns "custos da acção climática".

Cameron Hepburn aponta ainda que muitas acções de sustentabilidade são já rentáveis e resistentes aos ciclos políticos e económicos. “Isto porque a acção em prol da sustentabilidade está muitas vezes alinhada com uma maior segurança e um melhor desempenho económico. Pode reduzir os custos de energia e materiais, aumentar a resiliência, atrair talentos, diminuir a exposição a litígios e regulamentações futuras, abrir novos mercados e proteger a licença para operar”. O professor acrescenta ainda que alguns investimentos só se tornam claramente rentáveis quando as políticas corrigem as falhas de mercado: preços do carbono, mercados de energia limpa, normas, compras públicas, regras de transparência, reforma do planeamento urbano ou medidas de controlo de fronteiras.

Mesa Redonda - dia 1 de Julho

Na mesa-redonda de investimento sustentável, João Mestre, director de Sustentabilidade da Fidelidade, colocou os números em perspectiva portuguesa: os custos da tempestade Kristin ultrapassaram a soma de todos os eventos climáticos dos últimos 20 anos em Portugal, ajustados à inflação. O total estimado foi de seis mil milhões de euros, mas apenas 1,3 mil milhões estavam segurados. Ou seja, 80% dos custos não tinha cobertura. "Estamos a reconstruir tudo exactamente igual ao que estava antes", alertou, acrescentando que “o que vai acontecer quando houver uma nova tempestade?".

João Mestre, director de Sustentabilidade da Fidelidade

Mark Hume, director da BlackRock para Energia e Recursos Naturais, descreveu um mercado de capitais a reorganizar-se geograficamente em torno do risco geopolítico, mas viu oportunidade clara na Europa: armazenamento de energia, redes eléctricas mais resilientes e tecnologias de transição. "Os postes e os cabos vão dar dinheiro. É aborrecido, mas é regulado”.

Mark Hume, director da BlackRock para Energia e Recursos Naturais

A dimensão da informação e da medição foi central neste painel. Soojin Lee, responsável de Finanças Sustentáveis na Bloomberg, apresentou um dado revelador: entre as dez mil empresas do índice mundial que a Bloomberg analisou, 59% afirma identificar riscos físicos relacionados com o clima, 29% diz implementar soluções de adaptação, mas menos de 1% reporta efectivamente o investimento de capital feito nessa adaptação. "Sem dados, não conseguimos precificar a resiliência. E sem a precificar, não conseguimos financiá-la", concluiu. A sugestão foi clara: a adaptação climática precisa de um tratamento contabilístico equivalente ao do investimento em mitigação, com linhas de capex identificadas, comparáveis e auditáveis.

Sem natureza não há economia

O segundo dia da conferência foi dedicado à dimensão que ainda não conquistou o centro do debate público: a natureza como infra-estrutura crítica. Humberto Delgado Rosa, ex-director para o Capital Natural da Comissão Europeia, começou com um dado que soa a ficção científica: dos mamíferos que hoje existem no planeta, 96% são seres humanos e animais de pecuária. Apenas 4% é vida selvagem. "Será que é neste mundo que queremos viver?"

Humberto Delgado Rosa, ex-director para o Capital Natural da Comissão Europeia

A pergunta não era retórica. A lição é económica: 75% dos empréstimos e negócios na zona euro dependem criticamente de serviços prestados pela natureza - água, polinizadores, regulação do clima local. Quando a natureza falha, a factura chega. "As inundações que vivemos em Portugal não se explicam só pela chuva que caiu", disse Humberto Delgado Rosa. "Explicam-se também pelo solo descoberto, pelos rios sujos, pela floresta mal gerida. É uma factura da natureza."

A boa notícia trazida pelo ex-responsável da Comissão: cada euro investido em restauro de ecossistemas devolve, em média, oito euros em benefícios económicos mensuráveis. Nalguns ecossistemas, o rácio chega a 32 para um. "Não existe nenhum caso em que investir um euro e receber menos de um euro de volta", sublinhou.

Na mesa-redonda sobre capital natural e mercados de externalidades, Ed Horton, especialista em investimento em capital natural da Savills UK, descreveu um mercado ainda nascente, mas em rápida estruturação. O Reino Unido tem hoje um mercado regulamentado de biodiversity net gain - obrigando quem desenvolve terrenos a devolver mais biodiversidade do que aquela que destrói. Grandes fundos de pensões britânicos e europeus começam a entrar no espaço da agricultura regenerativa, atraídos pela combinação de retornos previsíveis e impacto mensurável. O gap de financiamento global de biodiversidade é estimado em 700 mil milhões de dólares por ano. "O capital natural é a próxima classe de activos", disse Ed Horton, que acrescentou que "ainda não é mainstream, mas os alicerces já estão a ser construídos".

Christian Heller, presidente da Value Balancing Alliance, sintetizou a mudança em curso nas grandes empresas: "Há vinte anos, a sustentabilidade era território das comunicações. Hoje o CFO assumiu a responsabilidade. Isso muda o jogo". O problema, admitiu, é que a pressão dos mercados bolsistas para resultados de curto prazo continua a trabalhar contra uma visão de longo prazo. O Japão foi apontado como modelo emergente: as empresas japonesas estão a incorporar métricas de capital natural directamente nos processos de gestão e de controlo financeiro, com uma velocidade que a Europa ainda não igualou.

Do retalho à teologia: diferentes entradas para o mesmo problema

A LSW26 distinguiu-se de conferências sectoriais pela diversidade deliberada dos seus participantes. A filósofa e teóloga Christine Schliesser, da Universidade de Zurique, trouxe um argumento que poucos esperavam: a crise climática é, antes de mais, uma crise de poder e de distribuição de responsabilidade. Recordou que foi a BP quem inventou o conceito de "pegada de carbono individual" - uma manobra para desviar a pressão das empresas para os consumidores. "Responsabilidade e poder não estão igualmente distribuídos", disse. "E a pressão para mudar o sistema deve incidir sobre quem o criou."

Christine Schliesser argumentou que os princípios éticos abstractos raramente mudam comportamentos, o que muda comportamentos são as narrativas pessoais. Usou o exemplo de uma amiga fumadora que parou quando ficou grávida: não foram os factos sobre o cancro que a fizeram parar, foi o amor pelo filho por nascer. "Não somos computadores. Vivemos de histórias." A implicação para as empresas é directa: escolher três ou quatro valores concretos, ligá-los a histórias reais e deixar que os colaboradores construam as suas próprias narrativas em torno deles. A regulação ajuda, mas não é suficiente sozinha, precisa de se tornar parte da história que as pessoas contam sobre si próprias.

Christine Schliesser, Universidade de Zurich

No sector empresarial, Mariana Pereira da Silva, directora de Sustentabilidade da Sonae MC, partilhou os paradoxos do retalho alimentar: 80% dos consumidores diz não saber distinguir um produto sustentável de um convencional; apenas 8% está disposto a pagar mais por ele. A empresa respondeu com integração, tornando os produtos de desperdício zero visíveis nas prateleiras normais, sem guetos de "secção bio", e usando inteligência artificial para reduzir o desperdício operacional. "Sustentabilidade não é só gestão de risco. É diferenciação e oportunidade."

Maria Pereira da Silva, directora de Sustentabilidade da Sonae MC

A directora da Sonae MC sublinhou que a transição para práticas agrícolas regenerativas não é necessariamente mais cara - há um período de risco de transição, com potencial perda de produtividade, mas os estudos disponíveis apontam para aumento de rentabilidade a médio prazo. "Produz-se um pouco menos, mas de forma muito mais rentável." A empresa desenvolveu uma plataforma que liga produtores à indústria para valorizar fruta e legumes fora de calibre - produtos visualmente imperfeitos, mas em perfeitas condições de consumo. A linha "desperdício zero" tornou-se um caso de sucesso. "As pessoas foram percebendo que aquele produto é excelente. E é uma win-win situation para os produtores, para nós e para o consumidor."

As cidades como laboratório

O último dia, no Beato Innovation District, fechou o ciclo com a escala mais próxima dos cidadãos: as cidades. Lisboa, Porto e Guimarães integram as 107 cidades europeias já com planos de neutralidade climática aprovados pela Comissão Europeia ao abrigo da EU Cities Mission.

Mesa Redonda - dia 2 de Julho

A dimensão mais inesperada veio do futebol. Manuel de Brito, vice-presidente do Benfica, revelou que 80% das emissões do clube provêm da mobilidade dos adeptos, e que a solução exige parceria com a Câmara Municipal, operadores de transporte e empresas privadas. O Benfica comprometeu-se a plantar 50 mil árvores nos próximos cinco anos em zonas afectadas por incêndios, com envolvimento directo de sócios e atletas. "Temos 450 mil associados. Um em cada três tem menos de 34 anos. Podemos influenciar comportamentos de milhões de pessoas."

Manuel de Brito, vice-presidente do Benfica

O FC Porto apresentou três projectos desenvolvidos com a Câmara Municipal do Porto no âmbito do Porto Climate Pact: um programa de mobilidade para dias de jogo, que colocou pela primeira vez à mesma mesa a gestão do metro, dos autocarros, da polícia e do clube, uma plataforma integrada de dados ambientais (mobilidade, água, energia, resíduos) e um BioLab junto ao estádio. A representante da Porto Ambiente sublinhou que apenas 5% das emissões da cidade são directamente controladas pelo município, o que torna as parcerias com o sector privado e os clubes desportivos indispensáveis para qualquer meta de neutralidade carbónica.

Paulo Ferrão, presidente do EU Cities Mission Board, alertou para a necessidade de escalar o modelo: 107 cidades com planos aprovados é um bom começo, mas insuficiente. Em Portugal, avança um "Passaporte Climático" para os 304 municípios do continente - um sistema de certificação em três níveis que permitirá reconhecer municípios que, mesmo sem os recursos de Lisboa ou Porto, estão a cumprir os requisitos legais e a avançar nos seus planos de adaptação. "As cidades mais importantes são as que tomam acção", disse Paulo Ferrão. "Independentemente do resto."

Paulo Ferrão, presidente do EU Cities Mission Board

As lições de Lisboa

Ao longo de quatro dias, a LSW26 evitou o registo de manifesto sem cair no cinismo. O tom dominante foi o do pragmatismo - reconhecer os retrocessos políticos sem os usar como desculpa para a inacção. Robert Engle disse-o com a clareza de quem tem um Nobel: "Acredito que as energias renováveis vão ser tão desejáveis que vão dominar o mercado. As políticas da administração Trump serão revertidas. Mas preciso que aconteça a tempo". E depois mostrou a fotografia dos seus cinco netos a olhar para um lago, sem saber como vai ser o mundo quando crescerem.

António Baldaque da Silva, director executivo do Center for Sustainable Finance da Católica-Lisbon SBE e anfitrião da iniciativa, resumiu o espírito: "Não há crescimento, muito menos desenvolvimento económico e social, contra a natureza. A LSW quer motivar essa chamada à acção e apontar caminhos". A próxima edição já está marcada.

António Baldaque da Silva, director executivo do Center for Sustainable Finance da Católica-Lisbon SBE

Filipe Santos, Dean da Católica-Lisbon SBE, afirmou que a “sustentabilidade é uma componente essencial na formação dos futuros líderes pois ensina a equilibrar o presente e o futuro e a ter em conta de forma mais sistémica os impactos das empresas e negócios na sociedade e planeta”, acrescentando que a prosperidade acontece quando o lucro das empresas está ligado à sua capacidade de criar valor. E não se trata de um cenário futuro. “Hoje as empresas com práticas mais sustentáveis angariam financiamento mais barato, contam com maior lealdade dos seus consumidores e dedicação dos seus colaboradores. Uma contabilidade capaz de medir o impacto e criação de valores permite aos stakeholders diferenciar as boas empresas das medíocres.”

Filipe Santos, Dean da Católica-Lisbon SBE

John Elkington - o homem que em 1994 inventou o Triple Bottom Line e que em 2018 chegou a propor o seu "recall" por considerar que o conceito tinha sido capturado como ferramenta de cosmética empresarial - deixou uma nota que sintetizou bem a ambivalência do momento: a sustentabilidade tem um historial de ciclos, de subidas e descidas na agenda pública. Mas os problemas físicos não seguem ciclos políticos. E essa assimetria, no final, é a única certeza.

John Elkington, autor britânico


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